Posso estar enganado. Posso estar sendo injusto com uma pessoa doente que apesar de ter tudo nas mãos e de ter a força de um touro – que ele mesmo adora mostrar fazendo pose de wrestler – sucumbe ao vício com uma fragilidade de bebê. Contudo, sob o ponto de vista jornalístico, acho prudente pontuar. Leia+ »
Tirando o chilique de José Mourinho ao final da partida, onde ele denunciava um complô contra uma líder de campeonato com nove pontos de vantagem, o sucesso interista sobre o Milan, não tem nenhum ponto a ser levantado. A Inter é muito melhor que o Milan, ainda que não jogue bonito e ainda que não tenha nenhum craque definitivo com exceção de um prodigioso Júlio César.
Confiando numa dupla de alas esforçada, no máximo, o Milan enfrentou a Inter sem Pato e Nesta. Na Inter, ausências do tipo teriam suplentes, mas na ’sponda rossonera’ da cidade, os dois deram lugar a Beckham e Favalli. Por outro lado, para “compensar” a ausência de Eto’o por um mês de Copa da África, contratou Pandev – o melhor segundo atacante da Itália, rivalizando com Alexandre Pato.
O Ronaldinho do auge do Barcelona talvez tivesse compensado Pato e Nesta, mas o atual, apesar de infinitamente melhor do que há seis meses, ainda não tem bala na agulha para se livrar de Maicon e ainda causar encrenca. Ronaldinho tem o talento, mas ainda não tem a velocidade nem o tempo de bola necessários a um ponta.
Pandev é a melhor contratação da Era Mourinho junto com Sneijder. É o jogador ideal para jogar ao lado de Milito e ainda pode ser usado também com Eto’o (com ou sem Milito). O macedônio merecia um time grande há tempos. Ele pode ser usado para dar amplitude à manobra (se desalocando pelos flancos), para se aproveitar da profundidade dada por um centroavante (Milito) ou até para jogar como segundo atacante num 4-4-2. Grande bobeada da concorrência. A menos que ele crie caso (porque é meio carniça mesmo), vai entrar no rol dos grandes atacantes. A ironia é que ele era da Inter e ficou sendo emprestado até convencer na Lazio.
Quando um capitão da seleção campeã mundial é pego num exame de doping, a primeira reação é a de negação, nem que seja só no país em questão. Fabio Cannavaro, 35 anos, em melhor jogador da Europa, contudo, não recebe este tipo de guarida de forma unânime nem na Itália.
A carreira do zagueiro é pontuada por escândalos. Anos atrás, um video de Cannavaro se injetando uma substância misteriosa num quarto de hotel em Moscou, antes da final da Copa Uefa em 1999, correu o mundo. “Ah, como eu sou nojento”, dizia Cannavaro no vídeo. O Parma venceu a final (um passeio de 3 a 0 sobre o Olympique de Marselha) e o jogador disse que estava injetando “vitaminas”.
No escândalo do Calciocaos, já durante a Copa do Mundo, o então capitão da “Azzurra” Cannavaro defendeu explicitamente Luciano Moggi, arquiteto na maracutaia e à época “capo” da Juventus. No dia seguinte, foi obrigado a se retratar, refutando o apoio ao que dissera um dia antes, por determinação explícita da federação.
No lançamento do filme “Gomorra”, no qual o dia-a-dia da Máfia em Napoli é mostrado de maneiar crua e violenta (é uma espécie de “Cidade de Deus”), com os criminosos campeando e a gente comum tendo de se adaptar, Cannavaro disse que não gostava do filme porque denegria Napoli. “Claro, o problema é o filme, então”, ironizou um jornalista, crítico da posição do jogador, que é um ícone na cidade (ele é napolitano). Igualmente, no dia seguinte, ele deu outra declaração dizendo que não tinha dito nada daquilo.
Qualquer acusação de doping precisa ser levada a sério, mas quando acontece num país como a Itália, que tem um histórico recente da mais podre e fétida lama, e com um jogador cujo comportamento não parece ser exemplo nem para o mais duvidoso dos mortais, o cheiro fica mesmo insuportável. Mais ainda num momento em que a Juventus vai retomando seu lugar de “poderosa” no futebol italiano e mantém uma proximidade incômoda do treinador da seleção, da qual oito jogadores são juventinos. “Incômoda” porque ao se revelar que Lippi pode reassumir a Juventus depois do Mundial, nunca se sabe até onde o jogo de interesses está ditando as regras.
A verdade é que tanto a seleção quanto o futebol italiano de um modo geral são escravos de uma combinação nefasta que se formou com a conquista do Mundial aliada ao escândalo do Calciocaos. Os quadro dirigencial do futebol italiano (e aqui falo de um modo geral, envolvendo clubes e federação envolvidos diretamente ou não) tinha de ser expurgado após a desgraça planejada por Moggi, mas com a conquista do Mundial, ficou. Como herança, a seleção também manteve uma série de jogadores que hoje não estariam numa seleção dos 23 melhores jogadores da Itália, como Gattuso, Camoranesi, Grosso e Gilardino, por exemplo.
Nem a Inter, aparentemente a única que “ganhou” alguma coisa com o escândalo, teve ganhos reais. Todas as conquistas interistas terão sobre si a interrogação de se o time era bom ou se jogou sem adversários. Mas isso não é o pior. O pior é que a Inter tem um olho em terra de cegos. Tem um time invencível na Itália, mas que no confronto com equipes européias sem nada demais, revela limites decisivos.
Não sei se Cannavaro se dopou ou se foi só picado por uma vespa mesmo. O que sei é que eu – e a torcida do Flamengo – temos uma impressão péssima do assunto. A aura de corrupção e impunidade jamais deixou a Itália após 2006 e acabar com ela é a condição básica para se pensar em uma retomada de colocação no futebol europeu. O fato é que a Itália não só se apequenou (porque o campeonato italiano hoje, não é que esteja abaixo de Inglaterra e Espanha, mas também de Alemanha e equiparando-se às ligas “médias” da Europa), mas parece estar conformada com isso. Só mudanças estruturais (i.e. troca de lugar do poder) no futebol, como as que ocorreram na Inglaterra com o Relatório Taylor, vão reverter a tendência.
Na semana passada, o Milan ganhou do Siena. Apertado. E a Inter empatou com o Bari. Por isso (porque um empate é pior que uma derrota), o MIlan passou sem mais nem menos a favorito no derby. Daí, no sábado, a lógica se recolocou e o Milan sofreu sua pior derrota (em número de gols) desde a eliminação na Liga dos Campeões de 2004.
Como o assunto é amplo, vamos seccioná-lo: primeiro, a partida. Ela não ocorreu. A Inter jogou sozinha e pela primeira vez em muitos anos, demonstrou que tem capacidade de jogar um futebol consistente para ganhar a Liga dos Campeões. O resto é conversa. Times que tem de confiar em um zagueiro como Materazzi ou dependem de um atacante como Ibrahimovic (craque, mas que some em partidas de porte) são “second class”. A Inter de Mourinho é (ou pelo menos mostrou que pode ser, quando quer) um Time, assim com “T” maiúsculo. Não há um setor que não ataque e defenda e até Maicon, que é mais ofensivo que um ponta, começou a defender.
Capítulo Milan. A temporada se desenha tenebrosa para o time. Leonardo não tem força junto ao elenco e tem a missão – condição determinada por Berlusconi – de fazer o time jogar em volta de Ronaldinho. Para piorar, não tem um grande goleiro, tem só laterais “idosos” para um esquema que dependeria fundamentalmente dos avanços dos defensores e não tem zaga reserva (Bonera-Onyewu seria uma excelente zaga para o Bologna, ainda que o americano ainda tenha a seu favor o álibi da adaptação, plenamente justificado). O miolo de meio-campo, por mais que se queira questionar Gattuso e Ambrosini, tem nomes para se montar um time de qualidade. O problema é que é só isso.
Seedorf (e outros cinco reservas) assistiam o jogo de meias. Quando Gattuso ia ser substituído, o holandês foi “se vestir” (estava com camisa de treino por causa do calor). Nos dois minutos seguintes, Gattuso, com uma lesão funda no tornozelo, fez a falta por trás em Sneijder, foi expulso e determinou o resto do jogo. Leonardo assistiu a tudo quieto.
Os jogadores já questionam Leonardo e é a hora dele mostrar se tem ou não estofo para gerenciar um grupo de milionários. Ele não ousa tirar Ronaldinho do time, até porque sabe que 1) sem ele, o time vai melhorar e o gaúcho não voltaria mais e 2) Berlusconi, seu único defensor, ficaria perigosamente contrariado. É a cruz ou a espada. Mas também é a hora de provar que não é um marionete. Leonardo não é o único questionado: Seedorf foi pego de pau pelo vestiário e Ronaldinho insiste (voluntariamente ou não) em não se mover em campo. Ambrosini, capitão do time, e Pippo Inzaghi, estão insatisfeitos com a reserva.
É um momento chave para Leonardo. Sem os dois laterais que ele pediu, seu esquema não vai funcionar. Zambrotta e Jankulovski podem ser excelentes numa defesa plantada, mas vão perder 10 em 10 duelos com Maicon. Caso o neotécnico milanista dê um murro na mesa, rearrume o time de modo mais coberto, com um meio-campo mais compacto, evitará vexames. Nem arquitetar um esquema para jogar no contragolpe o Milan não pode porque não tem mais homens de velocidade. Se não se rebelar agora, Leonardo não durará até a janela de janeiro, porque essa formação milanista está fadada a tomar muitas outras surras.
