Agora é o trem-bala que não estará pronto quando a Copa do Mundo de 2014 começar. É uma linha de ligará Rio de Janeiro a Campinas e custará R$34 bilhões. Deveria ter começado em 2008. A você, que acreditou no que disse Ricardo Teixeira, um nariz vermelho, Parabéns. Acostumemos-nos. Esse tipo de notícia, no esquema “não é bem assim”, será a tônica dos próximos quatro anos.
A Folha publica hoje que 95% do dinheiro para os estádios da Copa de 2014 virão do governo (via BNDES ou diretamente). Quem celebra uma Copa assim é criminoso, irresponsável ou burro. Detalhe dantesco especial para o estádio Mané Garrincha, com um custo – estipulado – em R$800 milhões e que depois abrigará incríveis confrontos entre Gama e Brasiliense.
Ainda não é, mas pode ser
Pode ser estranho – eu pelo menos acho -vir elogiar a Argentina depois de um final de semana em que o Brasil fez sua melhor partida na Era Dunga e o time de Maradona não passou de um mísero 1 a 0 sobre a Colômbia. É estranho, mas não é fora do normal.
O Brasil passeou. É verdade que o Uruguai é um time limitado e que sem Lugano e Cristian Rodriguez sofreu a beça. Mas também é verdade que, mesmo ainda não tendo lateral-esquerdo (não, Kleber não é o suficiente – aliás, nem para o Internacional), encontrou o módulo ideal para o momento: livre da presença de um Ronaldinho perdido, com três meio-campistas fortes (onde Gilberto Silva ainda está sabe-se lá porque, mas pode dar lugar a Lucas), com Kaká livre atrás dos atacantes.
É exatamente neste setor que está a diferença que pode dar à Argentina uma vantagem potencialmente decisiva na Copa. Luis Fabiano não é ruim, longe disso, mas Robinho é visivelmente um confeito. Tem talento de sobra, mas não sabe jogar (pode parecer contradição mas não é). E além disso, é uma negação no primeiro combate.
Uma das características do ataque do Barcelona de Guardiola foi uma determinação dada pelo espanhol aos avantes: marquem desesperadamente assim que vocês perderem a bola. E assim foi feito. Até o genial Messi, do alto do seu metro e meio, joga-se à bola como um faminto num prato de comida. Outro argentino do ataque de Maradona, Carlos Tévez, é ainda mais obcecado por tirar a bola do adversário. E detalhe: estamos falando de dois jogadores fora-de-série.
O ataque da Argentina para a Copa está prontinho – e é melhor que o brasileiro, mesmo com que Kaká esteja no seu melhor (sim, Kaká é um atacante hoje – um atacante que recua, mas um atacante). Com a presença de Milito na área mais Tévez e Messi, os argentinos têm um setor espetacular e que sufoca o adversário ainda na própria área.
Pode-se argumentar que a defesa brasileira é melhor. Mesmo com Dunga e seus treinos nonsense (antes de xingar o colunista por sua oposição ao técnico, favor comparecer a um treino da seleção em Teresópolis), a retaguarda brasileira é melhor. O vão na lateral-esquerda é um problema, bem como a incapacidade do time de coordenar descidas dos laterais, mas perto de Maradona, Dunga é Rinus Michels. A defesa argentina tem menos nomes de qualidade e nenhum desenho tático. Mesmo assim, com o Brasil melhor , há na Argentina material para se fazer uma defesa sólida.
Se alguém convencer Maradona que ele não precisa chamar seis atacantes para seu grupo (mesmo jogando com três), os argentinos só terão de resolver como jogar pela ala direita, uma vez que nem Zanetti nem Verón (que era teoricamente o jogador da posição contra a Colômbia) têm como dar a profundidade pedida. O time tem a tração dianteira nos trinques e se está jogando mal é pelo desarranjo no resto. O Brasil tem como tirar a diferença? Claro, mas não com Robinho – ou pelo menos não com o Robinho ziriguidum. Na África, ganhará o time que marcar mais acima no campo. Deixar jogar é colocar a viola no saco.
Ah, sim, outra vantagem dos argentinos: não terão seu país saqueado em 2014.
Copa do Mundo no Brasil
Há um certo medo nos jornalistas brasileiros em declarar oposição à Copa do Mundo no Brasil. Mesmo os que são contrários, temerosos de se indispor com o público num assunto onde a preferência popular é claramente favorável, atestam: “Eu sou a favor da Copa, mas que não se gaste dinheiro público”.
É compreensível. Morar num país onde contece uma Copa do Mundo é algo fenomenalmente legal. Ter seleções na sua cidade e a história acontecendo ao lado de casa é uma delícia. Mas muito melhor é ter índices de analfabetismo baixos, governos com pouca corrupção, políticos menos pilantras, infraestrutura e qualidade de vida decente para a população.
Por isso, sem meias palavras, eu sou contra a Copa no Brasil. Ponto. Não adianta diferenciar que “eu seria a favor se não estivesse nas mãos da CBF”. Sim, se pudesse haver um milagre que me garantisse sob pena de extinção dos envolvidos, que a Copa não desviaria nenhum real do país, eu adoraria tê-la perto de casa. Mas isso é uma fábula, mentira, lenda, história da Carochinha. A Copa, nas mãos da CBF, é um instrumento sórdido de política e de favorecimento de aliados. Não é possível provar que existe corrupção de antemão, mas há indícios. Não há? Então que alguém me prove que Manaus pode ter um estádio de R$ 6 bilhões que depois se mantenha economicamente viável.
Não acho que quem defenda a Copa no Brasil esteja “errado”. Cada um tem direito a ter qualquer opinião. Os interessados que defendem a Copa aqui, como clubes que sonham com estádios, prefeitos que sonham com promoção, empreiteiros que sonham com concorrências fajutas e dirigentes que sonham com levar algum por fora, esses são indefensavelmente culpados. Aquele cidadão comum que defende os gastos para ver a Copa de perto, a esse, na melhor das hipóteses, eu classifico como ingênuo, embora muitos adjetivos piores possam ser usados dependendo do argumento utilizado para justificar sua preferência.
Tarifa do sindicato dos palhaços
Um dos itens mais nojentos da Copa 2014 (entre tantos) é o fato de os políticos de estádios da Amazônia e Pantanal, além de permitirem de maneira asquerosa a destruição da floresta, agora usam a mesma como “atrativo” para conseguir sediar um ou dois jogos do torneio.
Confira abaixo os valores que trouxas como eu e você teremos de pagar por alguns estádios da Copa 2014 e os clubes que depois utilizarão o estádio, junto com suas respectivas médias de público no Campeonato Brasileiro. Uma verdadeira tarifa cobrada pelo sindicato dos palhaços brasileiros, categoria que só não engloba políticos e influentes milionários.
Vivaldão (46 mil lugares)
Preço: R$6 bilhões
Holanda – 4761 pessoas/jogo
Fast – 961 pessoas/jogo
Arena da Floresta (40.900 lugares)
Preço: não divulgado
Rio Branco/AC – 4.814 pessoas/jogo
Natal
Preço: R$1 bilhão
ABC – 9.274 pessoas/jogo
América/RN – 5.498 pessoas/jogo
Cuiabá (40 mil lugares)
Preço: R$ 340mi
Mixto – 2.755 pessoas/jogo
Luverdense – 1.150 pessoas/jogo
Campo Grande (44.355 lugares)
Preço: R$ 500mi
Operário – 1.825 pessoas/jogo
Águia Negra – 664 pessoas/jogo
Brasília (76.232 lugares)
Preço: R$ 250mi
Brasiliense – 3.018 pessoas/jogo
Gama – 1.836 pessoas/jogo
Legião – 1.341 pessoas/jogo
Dom Pedro II – 149 pessoas/jogo
E depois deste festim sórdido, o governo ainda terá de bancar a manutenção desses elefantes brancos. Pode colocar o nariz vermelho que vai sair do seu bolso também.
Bezerrão, o maior do país
Qual o maior estádio do país? O Maracanã? O Morumbi? O Mineirão? A Kyocera Arena? Não. Pela agenda, o maior e mais importante estádio do país é o Bezerrão o Walmir Campelo Bezerra de Brasília. Duas semanas depois de receber Brasil x Portugal, terá no seu gramado a decisão do Campeonato Brasileiro.
A cidade-satélite do Gama tem 5% de seus habitantes com nível superior de educação. No Distrito Federal (incluindo Brasília, porque o IBGE não tem dados exclusivos da cidade satélite), a oferta de atendimentos na saúde pública é 10 vezes menor do que a privada (no Brasil, a média de atendimentos privados é de 41%, números do IBGE). Há somente dois hospitais públicos. Mesmo assim, o governo estadual investiu quase R$ 50 milhões (o Orçamento DF para a Região Administrativa II – Gama é de R$ 77 milhões) para reformar o Bezerrão. Daí, a importância rapidamente adquirida pelo estádio.
Segundo o site do Gama (clube que recentemente esteve “de mal” da CBF por causa do imbróglio que levou à disputa da Copa João Havelange), a reforma foi “acelerada” pelo pedido do então deputado Agrício Braga Filho, curiosamente, o maior distribuidor de revistas do DF, até premiado pela distribuidora da Editora Abril. Fica fácil entender o corre-corre para colocar o Bezerrão no mapa – ainda mais com Brasília se candidatando a ser cidade-sede na Copa de 2014.
O Distrito Federal não existe no cenário futebolístico brasileiro e a quantidade de jogos relevantes que mereçam estádios modernos por lá é igual a zero. Mesmo assim, um governo intimamente ligado à CBF não se acanhou em enterrar um valor que representa mais da metade do orçamento dedicado a esporte e lazer em todo o DF para erigir um elefante branco. Um futebol forte em Brasília seria fantástico, mas antes, questões como saúde e educação têm de vir – mesmo que o povo queira pão e circo (ou só circo).
A CBF diz que o critério da escolha é técnico e que os torcedores do Goiás têm de ter seu interesse tutelado. Mas não são justamente os torcedores que têm de ser punidos pelos incidentes na partida com o Cruzeiro? E se não é o caso, porque não cancelar a suspensão e simplesmente deixar o jogo em Goiânia, num estádio maior e muito mais tradicional?
O futebol no Brasil deu largos passos na sua organização nos últimos anos. Estabelecimento de um formato que não atende só ao interesse da detentora dos direitos de transmissão, obrigação de anúncio do calendário com antecedência, controle mais rígido de públicos e rendas e afins. O resultado é visível: o nível técnico ainda está muito aquém do possível, mas o interesse pelo torneio aumentou radicalmente. Mas a mãozinha da CBF está voltando a aparecer, fortalecida pelo cacife político da Copa de 2014. Mesmo clubes e políticos que faziam oposição a Ricardo Teixeira agora abaixam o tom esperando por “presentes” do cartola na decisão das cidades-sede.
Os riscos são claros. Voltar a ter um campeonato propositalmente bagunçado (e assim, mais manipulável pelos detentores do poder) e uma lista de elefantes brancos como o Engenhão e o Bezerrão, com o nosso dinheiro. E se você acha que o problema não é seu, esconda a cauda e as orelhas em algum lugar, para evitar problemas.
